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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Angústia Juvenl

Não é fácil definir juventude. Ainda que procuremos muito, diferentes autores, ao longo do tempo, não conseguiram um acordo sobre uma definição exata. Além disso, a juventude é tão rica e tão ampla em matizes, é tão plástica e tão extraordinária que não encontramos uma maneira objetiva, concreta, sintética de defini-la. Como filósofos, temos uma fé enorme na juventude e uma grande esperança neste mundo futuro de que falamos tantas vezes e do qual tantas coisas dissemos. Pensamos que, no fundo, nenhum de nós deixou de ser jovem, e por um motivo ou outro, tampouco deixamos de ter algumas angústias, que poderão ser mais ou menos juvenis, mas que têm suas raízes nos mesmos problemas e em circunstâncias semelhantes.
Em geral, para definir a juventude deveríamos aceitar o que dizem alguns: que é um estágio intermediário entre a infância e a maturidade. Na verdade, é um estado intermediário, não único nem definitivo, mas muito especial, porque sai da chamada "doce inconsciência da infância" para entrar de repente em um despertar repentino e imediato para as próprias realidades interiores, emocionais, intelectuais, físicas e psicológicas que ocorrem, e, por mais naturais que sejam, não deixam de impactar fortemente a personalidade do jovem. Ao falar de juventude, não podemos referir-nos única e exclusivamente a essas mudanças físicas que ocorrem e que marcam a passagem da infância para a adolescência, mas também temos que nos referir a outras alterações concomitantes, psicológicas e mentais, muito profundas. Fazendo eco a velhas doutrinas tradicionais e esotéricas, temos que pensar também que a mudança na juventude vai ainda mais longe, e não só despertam a psique e a mente, mas que reaparece o próprio Eu, esse Ego Superior adormecido que vem do fundo dos tempos, e que precisa de um momento especial na vida para despertar e manifestar-se.
Não estamos de acordo com aqueles que dizem que a juventude começa com a puberdade, com a maturidade sexual. Nem devemos fazer acabar a juventude, quando aparece a maturidade e o ser humano já é adulto. Se assim fosse, deveríamos nos perguntar quando começa essa maturidade. Ou será que a juventude se prolonga muito mais, não só em seus aspectos positivos, mas justamente nos seus aspectos negativos, como a falta de maturidade para saber o que se quer? Vemos que não podemos estabelecer limites. A riqueza humana é infinita, as múltiplas expressões da evolução humana são infinitas, e não nos permite ficar limitados a definições restritas. A juventude tem algo de novo nascimento; é como nascer de novo, mesmo se estiver dentro de um corpo físico e expressado material e concretamente. A juventude é algo como abrir os olhos para uma nova forma de vida e suporta toda angústia que supõe justamente isso: ter que enfrentar uma nova forma de vida. É como se nascêssemos, mas desta vez o fizéssemos sozinhos, absolutamente sozinhos, porque sentimos que sozinhos vamos ter que resolver toda a angústia desse novo nascimento.
Como todo novo estado, esta nova juventude que acaba de nascer, nos é apresentada como instável, insegura e "intranqüila". Precisa garantir-se e não encontra como fazê-lo. E isso é o porquê da angústia, a que queremos nos referir. Podemos visualizar essa angústia de duas perspectivas: há uma angústia normal e lógica, que é própria do crescimento, do desenvolvimento deste ser humano que volta a nascer, quando deixa de ser criança; são todos os processos que reúnem a psicologia tradicional. Outro aspecto que nos preocupa muito, é a "outra" angústia, a que não é tão natural e própria da juventude; é a que soma nosso mundo circundante com todos seus problemas, e que é menos natural e mais estressante para a personalidade do jovem. Comecemos pela primeira. A psicologia dos últimos 150 anos nos diz que, de fato, não se pode avaliar a juventude somente por umas mudanças fisiológicas, hormonais, por mais importantes que sejam, mas que temos que valorizar outros elementos, muito próprios e característicos do tipo psicológico, intelectual e moral. Curiosamente, essa psicologia sempre enfrenta todas as mudanças da juventude como se fossem patológicas, anormais. São tantas, tão grandes e tão importantes as mudanças que o jovem deve ter a sensação de que está doente e o que lhe acontece é terrível. A primeira coisa experimentada pelo jovem é a necessidade de consolidar uma nova personalidade. De repente, tem que expressar novos conceitos e não há elementos para isso, e deve fortalecer-se em questões que parecem quase infantis, mas que são as primeiras que permitem expressar uma personalidade juvenil. Ele rejeita tudo o que foi o mundo anterior, porque significa criancice, ser pequeno, não pensar, não sentir, portanto, todo o anterior é mau, deve deixar de lado, rejeitá-lo. Dentro dessa rejeição geral, cabe imediatamente a ruptura da imagem que os pais tinham diante dos jovens, já não são o papai e a mamãe em que se refugiam, já não são o apoio, e junto com a ruptura desta imagem, caem as de todos os mais velhos que foram o apoio e o vínculo familiar mais imediato; todos os que haviam sido amores até agora se convertem em ódios. No jovem não existe meio termo: todo o amor que antes se expressava em relação aos pais volta-se para novos líderes. Há aspectos novos que têm de preencher o vazio que acaba de criar, e que desperta uma enorme angústia no jovem. Engrandecem a figura do professor, ou do sacerdote, ou de um amigo um pouco mais velho, ou de algum líder político. Às vezes os jovens querem apoiar-se até em líderes fictícios, que são de sua invenção e representam o ideal, o arquétipo e o perfeito. Às vezes, apegam-se a personagens históricos que representam tudo o que o jovem gostaria de ser e todo o seu amor se volta para eles. Mas no fundo, do que se trata é de preencher um buraco. E isso ao mesmo tempo produz uma enorme nostalgia e melancolia por este mundo infantil que lhe escapa das mãos e não vai voltar. O jovem, numa primeira etapa, tem uma grande propensão para a tristeza interior. Sente que perdeu um mundo, mas que ninguém consegue explicar. Sente que acaba de nascer para outro mundo, mas nesse outro mundo ninguém lhe entende. E essa tristeza tão íntima, tão profunda, jamais se manifesta exteriormente. No máximo, deixa ver um pouco de melancolia. Por fora, existe uma alegria exagerada, completamente fictícia, com risadas estridentes e atitudes fora de lugar, ou agressões, ou uma vitalidade exagerada que força a agressão. E mais, o jovem agride a seus pais porque lhes culpa pela perda desse mundo, e com um pouco de sentido de culpabilidade espera que os pais também o agridam, o que lhe parece que ocorre imediatamente. E aqui se encadeia uma longa sucessão de angústias, incompreensões, com as discussões cotidianas, os enfrentamentos constantes e o fato de não poder conviver com aqueles que até recentemente eram um núcleo fechado e maravilhoso. Diante desta situação o jovem responde de várias maneiras. Na realidade, é muito típico no jovem o despertar de ideias metafísicas; não na linha de uma metafísica filosófica perfeitamente elaborada, mas algo mais simples. O jovem começa a perguntar-se, pela primeira vez, o que são a vida e a morte. E se sugere que não é eterno, que está dentro do tempo, que tem crescido e mudado, que continuará crescendo e mudando e que desaparecerá. E então se pergunta sobre o que há além. Juntamente com estas idéias metafísicas aparecem outras de ordem moral. O jovem costuma ser muito rigoroso no começo, e de uma maneira muito sua e muito pessoal, muito rígida sobretudo com os demais, mas, em certa medida, também consigo mesmo. Se isso fosse levado a bom termo, teríamos o princípio do novelo que faria desaparecer a angústia juvenil de forma gradual. No entanto, e infelizmente, não acontece assim e esses primeiros ímpetos metafísicos e morais costumam promover nos familiares e amigos apenas um sorriso depreciativo ou uma piada um pouco cruel, que vai fazer feridas muito profundas no jovem. Do ponto de vista intelectual, podem acontecer muitas coisas completamente diferentes. Ou se abandonam por completo, e nos encontramos com estes jovens que tinham sido brilhantes e, de repente, param e começam a fracassar nos estudos, ou o contrário acontece: encontram no estudo um refúgio ideal e tratam de intelectualizar todo o problema que estão vivendo, encontrando uma maneira maravilhosa no mundo das idéias, e sendo capazes de detalhar exatamente tudo o que acontece em seu interior. Neste segundo caso, desperta uma grande curiosidade dialética, sem importar se as idéias que defendem são ou não verdadeiras. Querem discutir, realizar, demonstrar força e habilidade. Isso os faz realmente felizes. Outra reação típica do jovem é um pouco de egoísmo, que os psicólogos chamam de narcisismo. Centralizar-se em si mesmo, querer encontrar todas as respostas em si mesmo, exigir-se originalidade, porque para ser ele mesmo deve ser diferente dos outros e até um pouco excêntrico. Deve chamar a atenção, e isso é percebido muitas vezes em coisas simples como a moda. Mas é uma excentricidade muito especial, porque se destina a provocar um pouco os mais velhos. Também requer a aprovação de outros jovens que estão na mesma situação, para isso se cria grupos. Uma característica positiva deste período da juventude, apesar de doloroso e pouco aproveitado, é o despertar da amizade. Talvez nunca como nesta época se saiba o que é verdadeiramente a amizade. As amizades da juventude são gloriosas, as únicas onde tudo é maravilhoso, onde há uma confiança ideal, fantástica, e onde o amigo é tudo: a fuga, o alívio dos problemas interiores, e também quase - em um terreno que não pretende entrar no nefasto nem no mórbido - como um teste para o que será mais tarde o amor. O amigo é o apoio moral. E além dessas experiências individuais de amizade, às vezes, o jovem encontra outra fuga que é a dos grupos, onde se integra porque precisa sentir-se forte, precisa da aprovação daqueles que o cercam, porque é muito difícil caminhar sozinho. Os interesses dos jovens, segundo a psicologia, são muitos e muito variados. Costuma ser interessado em tudo, mas de forma pouco sustentada, hoje se começa algo e amanhã se deixa, começam muitas coisas e não terminam praticamente nenhuma. O importante é estar em movimento, mas realmente não está interessado em nada, há total apatia, porque deve responder ao excesso de estímulo da família ou de quem lhes rodeia, que lhes lança constantemente conselhos e recomendações sobre o que fazer ou não fazer, é uma ação defensiva. Em geral, o problema é que é simplesmente jovem e tem problemas. É difícil de entender, mas é uma realidade.
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Agora, voltamo-nos para outro aspecto. Nosso mundo, nosso angustiado século XX, chove sobre molhado e aumenta a angústia dos jovens. Vamos assinalar alguns dos aspectos que agravam enormemente a situação do jovem.Como filósofos, talvez sejamos forçados a começar pelo que consideramos o mais terrível, o pior de tudo, que é a abordagem errada à educação, uma educação que não é dirigida aos jovens, completamente estereotipada e só leva em consideração os estudos em si, mas não o ser humano que os vai receber ou realizar. O resultado é que os mais velhos lançam os jovens, sem qualquer preparação, a um mundo cruel e competitivo, sentindo-se estes incapacitados de prover-se por si mesmos nestas circunstâncias; ou os superprotegem e os mantém continuamente presos, impedindo-os de provar suas forças e lançar-se neste mundo, o qual, mais cedo ou mais tarde, terá que enfrentar. Ou por falta ou por excesso, o jovem fica com uma educação deficiente e não pode se manifestar no mundo. Em geral, os adultos podem cometer o erro típico de censurar o jovem que já não é mais uma criança e que tampouco é maduro, o que significa dizer-lhe que não é ninguém. Agora se fala muito de marginais, mas é que, sem querer nós mesmos os tornamos marginais, porque já não sabem o que são. E do marginal psicológico à delinqüência prática, às vezes, há apenas um passo. É romper uma barreira que pode ser pequena ou grande. No começo, se questionava a autoridade moral dos pais, mas acaba por questionar qualquer outra forma de autoridade, de modo que a vida social é praticamente impossível, e o jovem não reconhece e não respeita absolutamente nada. Como se isso não bastasse, explora-se cruelmente esta situação da juventude, aproveitando esta facilidade para o entusiasmo que há no jovem, esta facilidade para odiar e para amar, para embarcar em grandes aventuras, explorando com uma propaganda absolutamente indigna, já que costuma manifestar-se em forma de moda, que vão desde roupas até formas anárquicas de vida, desde as drogas até o ateísmo, desde a tática de irresponsabilidade pessoal até a rejeição a qualquer ordem estabelecida.
Uma juventude saudável não poderia ser explorada. Portanto, prometem-lhe mil e um paraísos impossíveis que nunca chegam e se chegam ainda são preocupantes, porque ainda há terreno para cultivar essa propaganda angustiante e continuar criando jovens que não sabem o que fazer com suas próprias vidas.
Como se isso não bastasse, surgem as respostas naturais que não devem surpreender-nos em absoluto. Hoje está na moda a apatia, mas é lógico, já que a passividade não é mais que um grito de angústia, uma maneira de dizer: o que posso fazer? Quando o jovem procura trabalho, pedem-lhe experiência. O jovem quer ser melhor, quer ser diferente, quer alcançar um ideal, quer formar uma família, mas o único caminho é que os pais lhe façam um lugar. Ou senão terá que esperar muito e não se sabe o que vai fazer nem quando. Se estuda, tampouco tem a possibilidade, na maioria dos casos, de aplicar o que estuda e terá logo que fazer qualquer outra coisa para ganhar a vida, para comer. A esta angústia começa a se juntar outra: a juventude vai marchando e o jovem começa a se dar conta de que não fez absolutamente nada. É lógico ser apático nestas circunstâncias. E, claro, é lógico se dedicar ao protesto, tanto passivo e estéril, como agressivo e violento. E depois há estatísticas que falam da "solução" para a busca infrutífera que é a interrupção voluntária da própria vida.Antes, quando se faziam pesquisas entre a juventude sobre os aspectos que mais lhe interessavam, destacavam no topo os valores estéticos, os valores morais, as necessidades metafísicas e as preocupações religiosas. Agora, as pesquisas mostram, em primeiro lugar, o bem estar pessoal, o dinheiro, o amor e, em seguida, algumas questões mais abstratas. Mas a primeira coisa a notar é a segurança, a tranqüilidade, o bem-estar.
Realmente se sente assim, ou a juventude foi empurrada a sentir e pensar dessa maneira?
Devemos perguntar se realmente os grandes sonhos da juventude morreram. Cremos que não, mas custa muito encontrá-los, e custa muito fazer um jovem confessar quais são seus grandes sonhos, pois os profissionais das entrevistas afirmam que os jovens não costumam responder a verdade.Inclinamo-nos a pensar que os grandes sonhos estão lá, mas temos que saber encontrá-los. São sonhos que eliminariam pouco a pouco a angústia, mas para isso precisam tornar-se realidade. Não há nenhum jovem que, fisicamente, não goste da beleza. Nem há qualquer jovem que rejeite a harmonia nem o bom gosto. Quando se rejeita é como um protesto e não porque não se ame o estético, o bonito, o agradável. A outra expressão é cuspir na cara do que não podem ter. Todos os jovens amam a saúde e gostam de se sentir fortes, no entanto, danificam a saúde, atentam contra o próprio corpo e destroem-no como uma recusa por pensar que afinal não há nada a fazer.
Os jovens podem negá-lo exteriormente, mas todos têm, no fundo, sentimentos puros e nobres. Ninguém gosta de sentimentos oscilantes, do que é hoje, mas não será amanhã, do que nos mantém sempre atormentados, angustiados e inquietos. Todo jovem sonha com a eternidade. Todo o jovem tem em um lugar privilegiado o conceito de amor, ainda que não queira confessar. Todo o jovem sonha com coisas limpas, puras, brilhantes e maravilhosas, ainda que não queira reconhecer. Anarquia e desordem existem, mas são formas de sofrimento. Não há nenhum jovem que, intelectualmente, não busque a sabedoria. A inquietude, o desejo de investigação, conhecer cada vez mais coisas, é algo próprio da juventude. É como uma ânsia incontrolável de penetrar em todos os segredos do mundo. O jovem quer saber, mas isso é difícil, porque às vezes tem que começar a retirar os véus, remover a ignorância e acender tochas no meio da escuridão. Às vezes, tem que descobrir que a ciência não só destrói, mas também constrói, que a investigação nos aproxima das leis mais íntimas da natureza, que a ficção científica não é suficiente para preencher todas as nossas horas, mas que existem leis genuínas que podemos conhecer sem cair em ficções. Às vezes temos que destruir falsos conceitos e descobrir toda a beleza que há na arte, com mensagens verdadeiras, e despejar estas outras farsas que às vezes temos que aceitar porque está na moda fazer isso. Às vezes, é necessário mostrar ao jovem que não é que seja ateu, mas não há nada bom ou nobre em que acreditar e que até mesmo a imagem e idéia de Deus têm sido abastardadas e sujas. Às vezes, temos que ensinar ao jovem que deve começar a recuperar a fé em si mesmo, para levantar-se progressivamente pela escada da fé em todas as coisas até chegar a Deus. Quem nunca quis ou quer mudar o mundo? Quem já não sonhou com esta revolução constante que nos permita eliminar todos os males e todas as injustiças? Mas é bom ter a idéia de que esta revolução deve começar por si mesmo, dedicando-se ao trabalho, à responsabilidade pessoal e a uma ambição saudável que seja uma força constante que nos leve para frente. Não uma ambição sem limites, mas que leve cada vez mais em conta o respeito pelos outros. Não há nenhum jovem que não sonhe com a felicidade. A felicidade existe e não é apenas a satisfação material, nem instintiva, mas algo mais com o que seguimos sonhando, sem saber exatamente onde a vamos encontrar. Diziam os estóicos que a felicidade absoluta não se encontra nesta terra, mas, no entanto, a cada dia podemos encontrá-la, se aprendermos a buscá-la com perseverança, com paciência, com discernimento, sabendo distinguir aquilo que nos convém e o que não nos convém. Não há tampouco nenhum jovem que não sonhe com a liberdade, com esta possibilidade de voar, porque a liberdade para o jovem não é fazer qualquer coisa, mas saber que é o que quer fazer, e aonde se quer chegar com o que está fazendo. Não há nenhum jovem que não sonhe com essa liberdade interior para a qual não existem barreiras, para a qual não há nem mesmo a morte. A grande pergunta que agora nos fazemos é se ainda existem jovens. Existem? Ou estamos condenados a ver apenas meninos com cara de adultos? Não nos assusta observar em nossos pequenos um olhar muito profundo para a sua idade, ou uma seriedade que inclui a censura, desde os primeiros momentos da sua vida? Também temos adultos vestidos de adolescentes que não foram capazes de superar a angústia juvenil. Temos que ultrapassar esta dualidade perpétua em que vivemos, sobretudo o jovem, que deve responder tanto às funções de seu instinto animal quanto aos seus sonhos mais sublimes, consciente por um lado de que é capaz de realizar proezas semelhantes às dos grandes livros, e por outro de que também pode ser um animal que se arrasta pelo chão. Temos que acabar com esta luta. Mas, para acabar com uma luta, não há escolha senão lutar. Em um velho e sagrado texto do Antigo Oriente, no Bhagavad Gita, há um homem ideal chamado Arjuna, que se encontra no momento exato da luta. Vai começar a lutar, e deve decidir-se naquele momento. Sofre desesperadamente. A angústia de Arjuna 5000 anos atrás não tem nenhuma diferença com a angústia que apresentam os tratados vigentes da Psicologia: é o mesmo desespero. Arjuna tem todo o seu mundo animal e instintivo a um lado, e ao outro, todas as suas sublimes aspirações, as maiores, as melhores. Tem que decidir, escolher, romper com o estado intermediário, com a instabilidade, tem que passar pela prova definitiva.
Quando nas civilizações antigas os jovens eram submetidos a provas antes de aceitá-los como adultos na sociedade, não se agia de qualquer maneira, nem se agia para cumprir determinados ritos mágicos sem qualquer significado, mas os provava de forma muito especial. Era uma prova de "coragem", "decisão", era o momento da batalha, da escolha, de colocar em jogo o discernimento. "Atreva-se e é certo que sairá vitorioso." Nos mesmos erros identificados como raiz e causa da angústia juvenil, estão as respostas que buscamos. Temos somente que inverter o erro, dar-lhes um sentido contrário e torná-los solução. Soluções de todos os tipos, desde as espirituais, intelectuais, emocionais, físicas e biológicas até soluções reais, práticas e concretas. Temos que lembrar algo muito importante, é que, além da angústia juvenil, na juventude se concentram as potências máximas; e que para ser jovem, não é preciso somente ter um corpo jovem, mas há uma eterna juventude que é a da Alma, que tem a capacidade de se manifestar, sempre e quando ainda haja possibilidade de sonhar, e sempre quando ainda haja possibilidade de realizar esses sonhos. E devemos lembrar também que se é jovem, eternamente jovem e sem angústia, quando com sonhos e com forças para induzir os sonhos, se aprende a andar com uma tocha, uma velha e conhecida tocha que os homens de antes e os de hoje e os de sempre chamam Esperança, Esperança juvenil e não angústia juvenil.

Profa. Délia Steinberg Guzmán Diretora Internacional da Nova Acrópole

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